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O que significa dinda? Entenda aqui!

A tradição anda um pouco em baixa e já não tem mais aquela força e simbolismo dos tempos antigos. Mas, mesmo assim, levar uma criança ao batismo ainda faz parte das quase obrigações dos pais com seus filhos, mesmo entre aquelas pessoas que não sejam praticantes de religiões cristãs. E do batismo surgem os padrinhos, entre os quais a madrinha ou Dinda, aquela figura carinhosa de que quase todas as pessoas guardam para sempre uma lembrança de gentilezas e simplicidade.

Originário do catolicismo e dos primeiros séculos da Era Cristã, o batismo continuou a ser mantido nas demais religiões que surgiram após a separação ocorrida na Igreja Católica por volta do século XV. Assim, também luteranos, anglicanos, metodistas, reformados e todas as demais igrejas evangélicas praticam o batismo de suas crianças.

Tradições do interior ainda perduram

É claro que o ritual nem sempre é o mesmo, pois, durante a separação, muitos dos dogmas da Igreja Católica foram contestados pelos reformistas. Em todas as cerimônias de qualquer culto, entretanto, permanece a figura da água como primordial para a consecução do sacramento do batismo. Alguns fazem essa cerimônia em rios, com a imersão do batizado dentro da água, enquanto outros, como católicos, apenas derramam a água benta sobre a cabeça da criança ou pessoa convertida que terá seu batismo quando adulto.

E é dessa cerimônia, de grande importância religiosa, que também surge a figura da Dinda, pessoa para quem a tradição, religiosa e familiar, atribui grande importância e tornando-a quase uma mãe para a criança que batizou. E não esquecer que, sempre, são dois padrinhos homens e duas madrinhas, ou seja, normalmente a pessoa tem duas Dinda, especialmente pelo interiorzão do Brasil.

O trabalho para duas Dinda

A explicação para isso é bastante simples. Com a falta de padres pelo interior, os pais passaram a fazer o “batismo em casa” logo após o nascimento da criança, para evitar que ela ficasse sem o sacramento sagrado que lhes foi ensinado desde sua própria infância. O batismo na igreja, portanto, só era realizado mais tarde, com a criança já na faixa dos dois, três, cinco anos ou até mesmo mais idade.

E este segundo batismo sempre teve outros padrinhos e, consequentemente, mais uma Dinda na vida da criança. Nada mal para um só ser humano – se ter uma dessas criaturas amáveis já é bom, imagina duas!

Dinda

Uma segunda mãe, com muito carinho

Para os pais da criança, a Dinda é sempre uma pessoa especial. Normalmente, a mãe costuma escolher a madrinha e o pai o padrinho, isso quando eles não constituem um casal. Esse relacionamento vem, normalmente, das amizades desde os tempos em que os próprios pais eram crianças, ou, então, amizades surgidas durante a adolescência e tempos de escola.

Por isso, ser Dinda de uma pessoa é bem mais do que a figura sagrada que representa dentro da igreja, de qualquer orientação. A Dinda é uma espécie de segunda mãe e, mesmo não sendo parente de sangue, passa a integrar a nova família como se dela fizesse parte por gerações.

Sobrevive o carinho com a sua Dinda

Dentro dos princípios do cristianismo, na verdade, os padrinhos têm essa função de também cuidar do afilhado, como se filho seu fosse. E sempre costumou-se dizer que, na falta do pai ou da mãe, ou de ambos, deveria caber aos padrinhos a tarefa de educar e cuidar de seu afilhado até o momento em que se torne adulto. Relação que mudou um pouco nos tempos atuais, devido à legislação que atribui a guarda de um órfão a pessoas com relação de parentesco de sangue, como avós ou tios.

Mesmo assim, incluindo os nossos centros urbanos atuais e, de forma especial, nas periferias, onde continuam mais arraigadas algumas tradições mais antigas, o papel da Dinda na vida dos afilhados ainda é considerado de primordial importância. E ainda hoje se vê aquele “benção, Dinda”, embora já bem menos frequente como até há algumas décadas.

Quem sabe uma fada madrinha

Por isso, ainda há o carinho muito grande no relacionamento da Dinda com os seus afilhados. São normalmente pessoas muito queridas entre nossas famílias. É claro que todos gostariam de ganhar uma Dinda como aquela fada madrinha do conto Cinderela, de origem chinesa e popularizado pelo Estúdio Disney. Órfã de pai e mãe, Cinderela passa a ser criada pela madrasta que, com suas próprias filhas, atribui trabalho de empregada, quase escrava, à jovem e bela Cinderela.

Até que aparece sua fada madrinha e toda sua vida se transforma. Como todos já sabem, ela passa as filhas da madrasta para trás e acaba casando com o príncipe encantado, graças às peripécias e maravilhas de sua Dinda poderosa e encantada.

Dinda

Em abrigos, pior para os mais velhos

Não é bem assim na vida real, embora existam verdadeiros contos de fadas protagonizados por pessoas comuns, graças ao apoio e amor que receberam de seus padrinhos e, de forma especial, sua Dinda. Um dos exemplos de melhor eloquência nesse sentido é protagonizado pela ONG Aconchego, em alguns estados e, de forma especial, no Distrito Federal.

A Aconchego responsabiliza-se pela criação e educação de crianças abandonadas e, sempre que pode, faz a aproximação de casais para a adoção dessas crianças, para que elas ganhem uma família. Mas, nem sempre isso é possível, principalmente depois que estas crianças chegam aos 9 ou dez anos. Ou são negras, perfil nem sempre procurado por pais que buscam a adoção.

Difícil tarefa de achar uma Dinda

A situação dessas crianças vai piorando na medida em que chegam à puberdade ou adolescência. A partir dos 7 a 8 anos, a ONG Aconchego busca casais para que operem como padrinhos de uma dessas crianças, buscando minorar o seu abandono. Objetivo não é a adoção, mas, apenas, que sejam padrinhos e ofereçam à criança apadrinhada um pouco de carinho e atenção, levando-a para sua casa – ou para passear – em alguns finais de semana.

Não é tarefa fácil. Em 2016, a Aconchego de Brasília convidou 745 casais para serem padrinhos. Após cursos e palestras, apenas 17 destas crianças, na pré-puberdade, acabaram ganhando padrinhos – e a sua querida Dinda, em especial.

Padrinho e afilhada, não pode

Não é fácil achar uma fada madrinha, como se vê. A partir do século II, no Império Romano, os padrinhos eram quase donos da criança, com obrigações sobre ela. É dessa época a expressão compadre e comadre. Tanto que, em 530, o imperador Justiniano proibiu o casamento entre padrinho e sua afilhada. No século XI, ficou proibido o casamento entre compadres – pais naturais e pais espirituais.

Ser Dinda ainda hoje, portanto, constitui-se em ato sublime, tanto para os padrões religiosos como de afeição familiar. Crianças e adolescentes, de forma especial, ainda denotam muito respeito a seus padrinhos. O bom mesmo seria que essa fascinação e respeito retornassem aos bons tempos antigos.

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yasmin