Língua Portuguesa

O que são figuras de linguagem? Como utilizar?

Figuras de linguagem

Se você quiser dar ênfase a um texto de sua autoria, seja uma poesia ou qualquer outro, use e abuse de figuras de linguagem – o texto fica bonito, ganha graça e, o que talvez seja mais importante, o que você quer transmitir ganha também mais força e torna-se mais inteligível. Não sabe bem ainda o que são figuras de linguagem? Pois é bom aprender logo, para a vida e para as provas e exames que vai enfrentar.

Figuras de linguagem são um recurso existente na língua portuguesa e que têm a capacidade de tornar sua oração, seja num discurso falado ou na escrita, bem mais fácil de ser entendido – embora, algumas vezes, a figura de linguagem utilizada seja um pouco enigmática.

Cruz e Souza, mestre em figuras de linguagem

Quem gostava muito de se utilizar desses recursos literários era o poeta catarinense Cruz e Souza, o primeiro poeta simbolista do Brasil e que viveu no século XIX – faleceu em 1898, dez anos após a abolição da escravatura. Filho de escravos alforriados, recebeu fina educação de seus ex senhores a ponto de, já no Rio de Janeiro, cultuar a amizade de figuras como José do Patrocínio.

“Gotas de luz e perfume, / leves, tênues, delicadas, / acesas no doce lume / de purpúreas alvoradas” escreveu ele no poema Abelhas há um século e meio. Você sabe bem que não existem ‘gotas de luz e perfume’. Trata-se de força de expressão, de figuras de linguagem a que o poeta se faz valer para dar beleza à sua escrita e expressar o que sentia naquele momento.

Sinestesia na poesia de Cecília Meireles

Neste caso de Cruz e Souza, o poeta utiliza-se de figuras de linguagem chamada ‘sinestesia’, que é quando é feita a associação de palavras que descrevem uma sensação humana com o objetivo de chegar a outra, de expressar outra sensação humana. Fala-se que, na sinestesia, uma pessoa que ouve sons é capaz sentir cheiros ou até a ver cores nesse som. Por isso é muito usada na literatura. “Ela sentiu o calor do amor…” Bem, sabe-se que, na real, o amor não tem calor, tem afetividade.

A poetisa Cecília Meireles também muito se utilizou de figuras de linguagem em suas poesias, algumas das melhores da literatura brasileira. Veja no poema Canção: “Minhas mãos ainda estão molhadas / do azul das ondas entreabertas, / e a cor que escorre dos meus dedos / colore as areias desertas”.

Figuras de linguagem

Metáforas estão entre as mais faladas

Nós sabemos que o azul não molha e que nem a cor escorre entre os dedos. Outra vez, as figuras de linguagem utilizadas foram a sinestesia. Nesse mesmo poema Canção, um pouco antes, ela havia se valido de uma metáfora: “Pus o meu sonho num navio / e o navio em cima do mar”. Ao referir-se ao seu sonho no navio, ela usa um novo significado à expressão ‘sonho no navio’. Um navio carrega cargas, nunca um sonho – apenas em sentido figurado, em metáfora.

As metáforas, na verdade, são as mais conhecidas das figuras de linguagem, as mais utilizadas em nosso dia a dia – até mesmo sem o percebermos. “De tristeza, ela chorou um rio de lágrimas”. Ninguém chora um rio, não é verdade? Então, ‘rio de lágrimas’ é uma metáfora para dar o significado de quanto ela chorou.

Figuras de linguagem mais comuns

Estão catalogadas mais de 30 figuras de linguagem no nosso idioma, já bastante carregado de armadilhas para o nosso dia a dia. Então, vamos ver algumas delas e alguns exemplos:

  • Catacrese – é quando usamos uma palavra que existe, mas damos outro significado a ela. Exemplo: ‘Quebrou a ‘asa’ da xícara’. Sabemos que quem tem asa é pássaro;
  • Metonímia – se parece muito com a metáfora. Exemplo: ‘Adoro ler Cruz e Souza’. Ninguém lê Cruz e Souza, mas, suas obras. Ao dizer a frase, porém, todo mundo entende isso;
  • Paradoxo – quando palavras antônimas são empregadas no seu sentido oposto. Exemplo: ‘Anda muito triste aquele pobre homem rico’. O homem continua rico, mas, com o espírito em baixa;
  • Antítese – Estas figuras de linguagem utilizam palavras opostas numa expressão comum. Exemplo: ‘Suava frio de tanto temor’. O suor ocorre no calor, né mesmo?
  • Ironia – Trata-se de figuras de linguagem que utilizamos muito no nosso linguajar diário, aparentemente brincando. Exemplo: ‘Com meu salário acabando, eu precisava mesmo de mais essa despesa’. A pessoa está ironizando a batida do carro, por exemplo;
  • Eufemismo – Quando queremos dar um sentido mais leve, embora idêntico, a um acontecimento. Exemplo: ‘Finalmente ele descansou em paz’. Aqui, deixamos de empregar a palavra morreu, que é bem mais forte;

Figuras de linguagem

  • Apóstrofe – Quando empregamos uma palavra no sentido de indignação ou surpresa contrariada. Exemplo: ‘Meu Deus, batestes o carro de novo!’ O sentido de Meu Deus! não é religioso, mas de indignação.
  • Cacofonia – Quando o fonema provocado pela união de duas palavras pode provocar a impressão de que há algo errado na frase. Exemplo: ‘A boca dela estava vermelha demais’. Parecia referência a uma cachorra e não à boca de uma pessoa;
  • Pleonasmo – Trata-se de uma das figuras de linguagem que mais utilizamos ao falar, inclusive sem o perceber, deixando a frase redundante, com significado duplo. Exemplos simples são aqueles que falamos como ‘subir para cima’, ‘cair para baixo’ ou ‘sair para fora’;
  • Ambiguidade – É quando falamos alguma coisa que pode ser interpretado com duplo sentido. Está correto, mas, pode dar outra interpretação. Exemplo: ‘O vizinho disse que seu filho já vai chegar’. O filho de quem já vai chegar? Do vizinho ou o seu?
  • Alusão – Estas figuras de linguagem fazem referência a outro texto, direta ou indiretamente. Exemplo: ‘Tão apaixonados tipo Romeu e Julieta’;
  • Hipérbole – Quando se fala alguma coisa de forma exagerada e até desconfortável. Quando há exagero na expressão. Exemplo: ‘Corri tanto que estou com meia tonelada em cada perna’. A perna jamais vai pesar tanto, correto?

Polissíndeto – Trata-se de figuras de linguagem que também usamos muito no dia a dia, muitas vezes sem o querer. É quando uma conjunção é repetida várias vezes na mesma frase, procurando dar-lhe sentido mais claro. Exemplo: ‘Ou você vai no cinema, ou você vai no futebol’. Impossível ir a dois lugares ao mesmo tempo, né mesmo?