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Anarquia: o que significa? Qual o seu verdadeiro conceito?

É batata: sempre que ouvimos falar de anarquia vem a cabeça o caos, a desordem, a baderna, a loucura e até uma impressão de ignorância, de ingenuidade ao surgir o inevitável questionamento de “como alguém pode achar que tal modelo de sociedade pode dá certo se nem com leis, forças policiais, exército etc se consegue manter a ordem, a paz, o progresso? Imagina como tudo pioraria se não existir nenhuma forma de governo!?”. Ou então: “Esse papo de sem governo é uma cascata, o Homem é ambicioso demais, certamente alguém iria lutar para ter alguma forma de poder. Esse papo de anarquismo não tem sentido, é uma utopia, luta contra a realidade dos fatos”.

São essas as impressões e associações que você faz ao ouvir o termo anarquismo? E se dissermos que a vida toda você comprou uma noção equivocada sobre esse assunto? Chegou a algum momento a pesquisar de onde surgiu o termo ou o movimento político e filosófico? Sim, trata-se de um movimento político que já teve muita relevância no passado, no Brasil, por exemplo, foi responsável uma das grandes paralisações operárias no começo do século XX.

Provavelmente você ouviu falar de anarquismo ouvindo alguém empregar o termo “anarquia” para se referir a um estado de caos absoluto, desordem, subversão, já que uma das principais características do movimento é a contrariedade a toda e qualquer forma de governo, mas será que se resume apenas a isso? Será que o termo é utilizado da forma mais justa e correta?

E por que não seria?

Fazendo um breve exercício de reflexão sobre o assunto, se uma das principais bandeiras do anarquismo é a oposição a toda e qualquer forma de governo, significa que certamente não se trata de um movimento que goza de grande popularidade para os que estão no topo da pirâmide social. É lógico pensar que, na época de seu nascimento e auge, sofreu fortíssima resistência por parte dos que não queriam perder o poder, que se dispuseram de todos os meios possíveis para esmagar o movimento e difamá-lo de todas as formas.

Conforme pode constatar em uma breve análise, o anarquismo não vingou em lugar nenhum no mundo e poucos o consideram uma doutrina política minimamente viável ou para se levar a sério. Mais um ponto para os barões do poder.

Essa constatação não significa que se defenda aqui a corrente política anarquista como perfeita ou o melhor caminho, mas serve apenas para demonstrar que faz todo o sentido a suspeita de que foi injustamente distorcida para atender determinados interesses.

E ao analisar os princípios básicos da anarquia e a forma como é tratada hoje verá que, independente das causas e origens, é abordada de forma muito simplória, superficial e equivocada.

Saiba por que conferindo o seu verdadeiro conceito a seguir neste post do Definição.Net.

 O conceito da anarquia

Estudando a etimologia do termo anarquia, vemos que ela se origina do vocábulo grego anarkhia, que significa “ausência de governo”.

O ideal da anarquia é abolir da sociedade toda forma de opressão de uns sobre os outros, toda forma de autoridade, e isso inclui o Estado, o poder estatal.

Só de analisar esse princípio cai por terra a ideia de que seja defensora de uma condição de anomia, a falta de qualquer tipo de ordem, de princípios, de moralidade, de regras, pois se o ideal é eliminar a opressão, a divisão de classe, os privilégios de riquezas, bem estar, do saber e de poder de determinadas castas em prol de uma sociedade mais igualitária, livre, não faria sentido tolerar abusos de toda sorte que prejudicassem o coletivo.

Ausência de poder não é o mesmo que ausência de ordem, a desordem pode ocorrer como consequência da falta de um poder claro, mas não significa que o fim de um governo central terá como único efeito possível a instauração da libertinagem.

Os princípios que guiam a doutrina anarquista quanto ao convívio em sociedade sem a presença de um poder estatal, isto é, uma autogestão social pautada pela vontade e a razão de cada um, são a liberdade, a igualdade e a fraternidade.

Isso desmistifica a ideia de que seja um movimento descerebrado, debiloide, preguiçoso que defende apenas a destruição sem se preocupar estabelecer normas mínimas de convivência. Repetindo: a contrariedade é contra a opressão, não contra a ordem. A ideia é de que o coletivo é capaz de gerir o convívio sem a interferência de um governo ou grupo de influência que reivindique o monopólio da autoridade e que tente determinar o que é certo ou errado.

As semelhanças com o socialismo e comunismo

A anarquia tem muitas semelhanças com os princípios e objetivos de sistemas políticos como o socialismo e o comunismo. Todos têm como meta uma sociedade mais justa, sem divisão de classes e perpetuação de privilégios, sem monopólio de propriedade, e esse último os tornam contrários, de forma sintomática, a economia capitalista.

No entanto, anarquia, socialismo e comunismo não são a mesma coisa, não podem ser confundidas, já que trilham caminhos diferentes para alcançar seus objetivos.

O socialismo e o comunismo defendem aplicar o desenvolvimento, o progresso para uma sociedade mais justa, por meio de uma reforma no Estado, do seu modus operandis, promovendo alterações de conduta política e econômica, seja introduzindo mudanças graduais ou abruptas. Ou seja, não abrem mão de um governo central. Na verdade, defendem um Estado praticamente onipresente, ideia para causar urticária a qualquer adepto da anarquia, pois, como já apontado, os anarquistas rejeitam qualquer tipo de autoridade, pois entendem que cedo ou tarde o Estado se transformará no promotor de ações excludentes, opressoras e autoritárias.

Ramificações da anarquia

Existem diversas correntes da anarquia que em algum momento do modelo político e filosófico que defendem esbarram em divergências, seguem por caminhos diferentes. Vamos apontar apenas as correntes mais conhecidas.

Anarquia individualista

Essa corrente do anarquismo prega que a sociedade não pode se submeter aos ritos de uma coletividade, favorecer ou aderir tradições que reflitam o desejo de uma maioria e que acabem se sobrepondo a vontade individual. Defende que cada um é mestre de si mesmo e que deve se associar com grupos ou pessoas apenas de forma voluntária.

A anarquia individualista entende que o favorecimento de uma coletividade pode resultar em autoritarismo, uma concentração de poder que exerça influência sobre os demais.

Anarquia coletivista

Já essa vertente do anarquismo é inteiramente frontal a ideia de estimular o individualismo, pois nota que tal ato se assemelha a lógica do sistema de que é abertamente contrária, o capitalismo, a exaltação do indivíduo em relação ao coletivo. O individualismo, na concepção dessa vertente da anarquia, poderia resultar na centralização do poder aos que eventualmente se destacassem dos demais.

Considerações finais

Anarquia é um sistema político e filosófico que defende o fim da opressão de uns sobre os outros, sendo contrária a divisão de classes, os privilégios de riqueza, de bem estar, de saber e de poder. São favoráveis a uma sociedade livre, autogerida, pautada pela razão e vontade de cada um, desde que se guie pelos princípios de liberdade, igualdade e fraternidade. Para tal fim, é favorável a extinção de toda e qualquer forma de governo, e isso inclui o poder estatal, e o monopólio da propriedade.

O princípio da anarquia é a ausência de poder, mas não a ausência de ordem.

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