Arte

Teatro japonês: o que é, origem, história e os quatro elementos

O que é?

Tradicionalmente, o teatro japonês é caracterizado pela junção da dança, da representação e da música (o que inclui o uso de instrumentos musicais e o canto). Ele possui quatro elementos atualmente: o , o kabuki, kyogen e o bunraku.

Origem e história

Mitologicamente, a origem do teatro japonês se deu a partir da dança da deusa Uzume. Reza a lenda que, em um belo dia, os deuses Izanami e Izanagi enviaram o seu filho Suzanoo para a chamada Terra de Yomi (Terra dos Mortos), como forma de castigá-lo por suas más ações.

No entanto, antes de partir, ele teria visitado a sua irmã mais velha, Amaterasu, a deusa do Sol. Suzanoo pregou várias peças na irmã e, por ter se irritado, esta se refugiou em uma caverna, afundando-se em um mundo de extrema escuridão.

Para reverter a situação, os deuses, que estavam preocupados, reuniram-se para pensar em uma forma de fazer com que Amaterasu saísse de lá. Então, astutamente, resolveram dar uma festa em frente à caverna.

Não demorou muito para que, em um dado momento, a deusa Uzume, carregando um capuz e uma lança, começou a dançar em cima de um barril, em meio a todos os deuses, fazendo todos ali cair na gargalhada. Com isso, a movimentação e as risadas atraíram Amaterasu, trazendo, assim, a luz do Sol de volta ao mundo.

Após isso, Suzanoo foi castigado pelo aborrecimento causado. Uzume, por sua vez, desceu à Terra e diz-se que esta deu origem à família imperial e, também, às primeiras sacerdotisas. O episódio foi descrito no famoso livro Kojiki (registro das coisas antigas).

A origem do teatro japonês está diretamente ligado à religião, tanto historicamente quanto mitologicamente falando. Tanto é que as danças religiosas que eram executadas em templos, festivais e santuários, como é o caso da kagura (dança xintoísta), a bugaku e a gigaku (danças budistas originárias na China e Índia, respectivamente), além também das populares sarugaku e dengaku, originaram as tradicionais formas de teatro no Japão.

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Os quatro elementos do teatro japonês

O teatro japonês como conhecemos hoje tem sua origem na segunda metade do século XIV. E ele possui características muito diferentes do que estamos acostumados a ver no teatro aqui no Brasil, sendo conhecido pela junção da dança, da representação e da música (o que inclui o uso de instrumentos musicais e o canto).

Atualmente, existem quatro tipos de teatro ainda apresentados no Japão: KyogenNoKabuki e Bunraku. Conheça melhor cada um deles abaixo:

1 – Teatro No

Também conhecido como Nō, Noh ou Nou, a modalidade de teatro No originou-se nos ritos xintoístas. Ele foi estreado por Kan’ami Kiyotasugu (1333-1384) e, anos depois, desenvolvido pelo seu filho, chamado Zeami (1363-1444). Logo depois, foi adotado pelos lordes feudais, popularmente conhecidos como Daimyo, tornando-se mais cerimonial e ritualista.

Entre as suas características estão a combinação de música, pantomima, canto e poesia, que nada mais é que uma das formas mais importantes do drama musical clássico japonês. O teatro No e sua forma de arte progrediu de outras vertentes teatrais, populares e aristocráticas, tais como o Shirabyoshi, Dengaku e Gagaku.

E, para fins de curiosidade, o termo “No” deriva de uma palavra presente no vocabulário japonês que quer dizer “habilidade” ou “talento”. Durante as apresentações, os personagens do teatro No costumam utilizar máscaras, como é o caso dos protagonistas (shites) e seus acompanhantes, mas não todos do elenco.

O No tradicional é apresentado em um palco vazio, com um telhado semelhante ao de um santuário, três lados de madeira de cipreste e uma entrada lateral em rampa. Há também a tradição de todos os atores serem homens e que estes usem máscaras para interpretar demônios e personagens femininos.

Durante a apresentação, estes aparecem um ou dois por vez, sempre a partir de movimentos coreografados e lentos, nomeados kata, e que também são utilizados em artes marciais, normalmente com fundo musical da era feudal.

Outra características tradicional do teatro No é que os atores usam trajes pesados e decorados, com várias camadas, para dar mais imponência a estes.

E se antes as apresentações do No costumavam durar praticamente um dia inteiro, com cinco peças intercaladas com pequenos textos cômicos de Kyogen, atualmente, são apresentadas apenas duas peças de No tradicional, intercaladas com somente uma de Kyogen.

As atuais companhias de No estão localizadas em Tóquio, Osaka e Kyoto (Quioto) e misturam o No com outras tradições teatrais também acontecem, além da inclusão de mulheres.

Em resumo, o teatro No combina teatro, poesia, bailado, música instrumental e vocal e máscaras. Os diversos elementos musicais dentro dele são entrelaçados numa simbiose a pantomima e o canto.

Além disso, a descrição de cada cena das peças teatrais repousam exclusivamente no texto do canto e nos movimentos e gestos do ator. A junção desses elementos obedecem à regras corporais e musicais, à teorias sofisticadas, resultando em uma apresentação, esteticamente falando, extremamente refinada, linda e única.

2 – Teatro Kyogen

O Kyogen surgiu no século XIV e tem as mesmas origens do teatro No, isto é, o sarugaku. Foi a partir deste período que passou a existir a diferenciação entre o sarugaku sério, que é o No em si, e o sarugaku humorístico, o Kyogen. Em outras palavras, trata-se de uma forma cômica do tradicional teatro no Japão.

No entanto, eles eram vistos como uma unidade e, por causa disso, ganharam o patrocínio da elite aristocrática séculos após a sua criação.

O Kyogen é caracterizado pela estrutura simples do palco, apresentado com interpretações sem coreografia, mas em que são trabalhados temas atuais, como é o caso da relação entre chefes e subordinados. E, até os dias de hoje, manteve o seu formato original.

Considerada uma forma de teatro informal, o Kyogen ressalta a fragilidade do homem. Os trajes usados nas apresentações são bem simples e as máscaras são raras. Além disso, normalmente, os atores vestem meias chamadas tabi. Lá no Japão, duas escolas constituem o teatro Kyogen: a Izumi e a Okura.

Curiosamente, este formato de teatro foi difundido durante o período Muromachi e, mais tarde, durante o período Edo, sob o Shogunato Tokugawa.

3 – Teatro Kabuki

Já durante o século XVII, os amantes de teatro no Japão passaram a sentir a necessidade de assistir a um peças mais divertidas e de fácil compreensão. Então, partindo do No, surgiu o Kambuki, em Quito (Kyoto), patrocinado pelo Xogunato ou Shogunato.

O regime era um tipo de ditadura militar feudal (samurais), que governou o Japão nos períodos Kamakura (1185-1333), Ashikaga (1336-1573) e, ainda, no período Tokugawa (1603-1868). Sendo assim, com o apoio deste governo, o Kabuki foi fundado por Okuni e Izumo. Naquela época, não era algo comum ver as mulheres trabalharem como atrizes, mas ainda era possível encontrar algumas raras. Estas, infelizmente, tiveram a atuação no Kabuki proibida durante o período Tokugawa.

E, após essa proibição, os atores do sexo masculino passaram a praticar ainda mais o chamado crossdresser, popularmente conhecido no Japão como oyama ou onnagata (papel de mulher).

Em relação às características do teatro Kabuki, as apresentações são exuberantes, formadas por um elenco e palco grandiosos. Se comparadas às demais modalidades do teatro japonês, as máscaras deram lugar às maquiagens super elaboradas.

As cortinas ganharam destaque, servindo para as mudanças no cenário, que, tradicionalmente, usam efeitos especiais, tais como setores que giram, alçapões e cabos elevados para os personagens “voarem”. Para dar ainda mais diversão ao público, o coro e os músicos também estão presentes nas peças, só que atrás de um biombo ou de cada lado do palco.

Além disso, a dramaturgia se utiliza do estilo Aragoto, que significa “estilo brusco de atuar”, geralmente usado em apresentações com personagens masculinos e maquiagem estilizada.

Portanto, ao assistir às peças teatrais do Kabuki, é comum ver os atores se deslocando de maneira exagerada, com expressões faciais e olhares bastante chamativos, que são cruciais para uma boa atuação nesse estilo.

Em cima do palco, os atores mais importantes costumam ficar à direita e os menos importantes à esquerda. E para você conseguir identificar essa hierarquia, além da posição no palco, também é possível observar peruca e trajes: quanto mais elaborados e caracterizados estiverem os atores, mais indicam a personalidade do mesmo e, portanto, o grau de importância dentro das apresentações.

Atualmente, um artista bastante reconhecido e consagrado dentro do teatro Kabuki é o jovem Chikawa Ebizo XI. E esta modalidade dentro do teatro japonês tradicional é a mais difundida e apreciada no Ocidente.

Para fins de curiosidade, sabe-se que o Kabuki possui um teatro especialmente criado para representar essa arte, bem como adequado para receber o público de maneira mais tradicional, conforme a cultura japonesa, isto é, em tatames.

Além disso, Kabuki-za é o teatro mais antigo no Japão a funcionar até os dias de hoje. A sua fundação se deu na antiga Tóquio, no período Edo.

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4 – Teatro Bunraku

Com o mesmo objetivo do Kabuki, o teatro Bunraku visa entreter o público. Trata-se de uma modalidade de teatro de títeres (um tipo de marionetes). Geralmente, os títeres possuem 1,2 metros de altura, trajes e cabeças entalhados em madeira e mãos móveis.

As peças de Bunraku costumam ser apresentadas por dois assistentes, que ficam um de cada lado dos “bonecos” e, para passarem despercebido pela plateia, usam vestimentas pretas. Enquanto isso, o titeriteiro veste traje formal ou de acordo com o tema da peça.

Os títeres podem representar tanto personagens animais quanto humanos. Durante a apresentação, a história é narrada por um contador. Enquanto ele fala, a música shimasen acompanha as ações dos títeres nas cenas.

Uma curiosidade muito interessante é que várias peças Kabuki foram originalmente escritas para títeres. Por outro lado, o Bunraku também utilizou muitas peças Kabuki em suas apresentações.

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Até a próxima!

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