Língua Portuguesa

O que é algo pejorativo? Por que deve ser evitado?

Quase todas as pessoas praticam atos ou se expressam de forma pejorativa, mesmo sem o querer. Isso ocorre de forma especial quanto ao sexo, à raça ou ao status social da pessoa em referência. É algo de nossa cultura histórica, extremamente machista, xenófoba em relação a alguns povos e, com certeza, extremamente racista. Por isso, é importante conhecer bem o que é pejorativo para, principalmente, eliminar do nosso cotidiano palavras e atos que praticamos equivocadamente, sem o saber.

O pejorativo nos acompanha desde que somos crianças, especialmente quanto à raça. É comum ouvirmos que vêm “nuvens negras” daquele lado, indicando que vai chover; ou que é proibido “judiar” dos animais, porque eles sofrem muito.

Já pensou o que significa ‘judiar’?

Em ambas as expressões citadas, utilizamos de forma pejorativa palavras sobre as quais nem conhecemos bem o seu significado original. É da cultura de cada um, seja de origem branca ou negra. Simplesmente falamos, quase sem perceber que as nuvens ‘negras’ poderiam ser substituídas, de forma mais correta, por ‘escuras’. Mas, o ‘negras’, indicando mau tempo, já remete imediatamente à ideia de coisa ruim – coisa que vem de negros.

Ocorre o mesmo quando falamos em “judiar”, no sentido de maltratar, atormentar, fazer sofrer. Trata-se de uma forma extremamente depreciativa, pois nos referimos aos martírios vividos pelos judeus durante a II Guerra Mundial. Sem o querer, estamos sendo preconceituosos contra os judeus, da mesma forma de quando falamos em “denegrir” alguém.

Cartilha tentou corrigir esse preconceito

Percebeu como o termo pejorativo nos acompanhada no nosso dia a dia, sem o percebermos? Daí a importância de conhecermos este significado para podermos evitar sua repetição. Afinal, nem o pigmento da pele nem os martírios e sofrimentos impostos pelos nazistas aos judeus tornam uma raça humana ou um povo diferente do outro, para melhor ou para pior. Todos nós temos sangue vermelho nas veias e nascemos e somos exatamente iguais. Todos, um dia, vamos morrer.

Trata-se de assunto, de suma importância, mas que anda meio esquecido nos últimos tempos. Porém, já foi preocupação até mesmo da Presidência da República. Em 2004, o então presidente mandou a Secretaria Especial dos Direitos Humanos editar uma cartilha que tratava exatamente do “Politicamente Correto” na hora de expressar-se em público, especialmente autoridades.

O verbo pejorar já é pejorativo

O texto explicava, em seu início, exatamente isso: muitas vezes ofendemos o outro, sem o querer, através de palavras ditas de forma grosseira, inadvertidamente. E acrescentava: “Se queremos ser respeitados, devemos respeitar”. Absolutamente correto, não acham? Essa cartilha, infelizmente, perdeu-se no tempo, como outras coisas importantes que levam a pecha de que ‘não pegou’. Mas, deveria ter sido recitada em cada sala de aula, para entronizarem esse tipo de pensamento em nossas crianças, gerando pessoas ‘politicamente corretas’.

É preciso ter em mente que esse adjetivo, na língua portuguesa, sempre traz um significado depreciativo em relação a alguém, seja uma pessoa ou grupo de pessoas, com expressões carregadas de efeitos desagradáveis e insultuosos. Começa pelo próprio pejorar, verbo que em português quer dizer rebaixar ou depreciar.

É preciso corrigir-se ao falar

Sua origem também traz a mesma história. Vem do latim pejorare, que quer dizer tornar pior ou piorar. Sempre que empregado, o adjetivo pejorativo torna-se insultuoso, ofensivo e desagradável. Por isso, existe até mesmo uma linguagem que é toda pejorativa e é empregada justamente com a finalidade de depreciar alguém ou grupo de pessoas.

É assim quando dizemos, muitas vezes sem pensar, que “isso é coisa de judeu”, ou, então, “isso é coisa de negro”. Corrigir-se e policiar-se no momento de falar torna-se a única vacina eficaz contra esse linguajar grotesco, ignorante e racista, ou seja, altamente preconceituoso e despropositado.

Preconceito sexual, também terrível

Na verdade, é preciso desconstruir essas expressões que nos acompanham com o tempo e que têm origem lá atrás, na nossa história, seja a brasileira ou mundial. Afinal, os negros sofreram com 300 anos de escravidão no Brasil e é preciso acabar com esse preconceito injusto e irracional. O mesmo ocorre com os judeus e o sofrimento desse povo, imposto pelo nazismo.

O comportamento pejorativo também ocorre em relação à diversidade sexual. Quando nos referimos aos gays ou ao público LGBT como um todo, quase sempre carregamos em expressões que visam minar a autoconfiança dessas pessoas e rebaixá-las a um nível que julgamos inferior ao nosso. Mas, será que o homossexual é inferior ao hetero?

Práticas equivocadas em nossa vida

A opção sexual de cada um diz respeito apenas a essa pessoa e a mais ninguém. Tudo o que se faz em termos de sexo, afinal, usualmente ocorre em quatro paredes e só interessa a estas pessoas. Passado esse momento, todas as pessoas continuam exatamente iguais, com suas massas cinzentas inabaladas, duas pernas, dois braços e uma cabeça pensante. Todos absolutamente iguais.

A linguagem pejorativa ou o pejorativo em si é que nos carrega para essas práticas equivocadas de encarar a vida. O pior nisso tudo, conforme já dissemos, é que em boa parte das vezes assumimos essa posição sem percebermos.

Mulata “da cor do pecado”

Quando dizemos vou dormir porque “amanhã é dia de branco”, carregamos no preconceito segundo o qual o negro é preguiçoso. O que, aliás, não condiz com a realidade que enfrentamos no dia a dia, em que cidadãos de origem negra trabalham tanto ou mais que qualquer outro, de origem branca ou amarela. E, mesmo durante a escravidão, os negros foram submetidos a severos trabalhos pesados e deram conta do recado. Merecem, pois, são elogios.

Até mesmo quando pretendemos elogiar uma mulata bonita, descendente de negro, dizemos que ela é linda “da cor do pecado”. A cor do pecado refere-se aos momentos em que os senhores de engenho forçavam suas negras escravas ao sexo, normalmente em locais próximos à senzala. O diferencial é que negra ou mulata de hoje podem até fazer sexo – e fazem – com branco, mas, porque é de seu agrado. O pejorativo, nesse caso, costuma sair de nossa boca como um elogio, mas, na verdade, é um insulto.

O pejorativo na poesia de cordel

A bonita poesia de cordel brasileira, que prolifera de forma bem especial no Nordeste do País, canta essa injustiça em alguns poemas. O pejorativo é criticado como deve ser, algo insuportável. Como na poesia “Não me chame de mulata”, da poetisa Jarid Arraes. Leia, absorva e observe:

“É possível ainda hoje
Um ditado se escutar
Se o pai é homem preto
E com branca se casar
Todos rezam pra nascer
Um bebê pra condizer
Que à mãe deve puxar”.